"Dry Leaf": quando a busca é o caminho
- Isadora Caldas

- 11 de nov.
- 4 min de leitura

“Há quanto tempo você me procura? O que você encontrou? Talvez tenhamos visto as mesmas coisas – não seria isso uma espécie de reunião?”
Dry Leaf é o terceiro longa metragem do georgiano Aleksandre Koberidze e conta a história de Irakli (David Koberidze, pai do diretor) na busca por Lisa, sua filha desaparecida. Retraçando os passos de Lisa acompanhado pelo melhor amigo da filha, Levani (Otar Nijaradze), Irakli parte Geórgia adentro em busca dos campos de futebol fotografados por Lisa, retraçando seus passos em busca de seu novo paradeiro. Adepto do slow cinema, Koberidze alarga seus filmes para além da trama ao priorizar a sedimentação da atmosfera que embala a história. Dry Leaf é um filme de estrada contemplativo, que se demora no percurso muito mais do que procura resolver seus conflitos; todo o tempo que Koberidze empenha na construção da viagem de Irakli é reflexo do carinho que o diretor sente por seu país e que envolve todos os seus filmes em uma mística muito própria.
Tal como em What Do We See When We Look At The Sky? (2021), o mundano e o fantástico se entrelaçam com uma naturalidade quase chocante; Levani, por exemplo, é um personagem que nunca vemos, do qual só ouvimos a voz, mas que interage com Irakli como se sua aparente translucidez não fosse uma questão – e talvez ele não seja de fato invisível, mas só fora de nosso alcance.
Filmado com o mesmo flip phone Sony Ericsson W595 usado em Let the Summer Never Come Again (2017), a imagem de Dry Leaf deixa muito fora de nosso alcance. A câmera de 3.2 megapixels é imprevisível e um tanto indomável: a todo o tempo a imagem se acende e se apaga, se faz e desfaz em pequenos quadradinhos que perdem ou ganham sentido com o próximo movimento. Os níveis de saturação das cores, da exposição da luz e o zoom aparecem também como personagens, sugerindo paisagens e brincando com as expectativas que erguemos ao redor do que aparece na tela.
Pensando em história da arte, todo rigor técnico consolidado desde o século 16 permitiu aos pintores do século 19 uma ruptura com o cânone tradicional: não mais as composições épicas e pinceladas suaves de um Rafael, mas o retrato de cotidianos banais que surgem por entre riscos robustos, quase agressivos. O movimento impressionista toma como ponto de partida uma arte que já tinha superado os desafios de representar a realidade de forma fidedigna e se propõe a adentrar na captura dos sentimentos.
O retrato impressionista exige ativamente do espectador, que é chamado a interagir com a pintura com menos solenidade, atuando ativamente em sua significação. Um quadro de Manet ou Renoir, por exemplo, ao insinuar suas figuras obriga o espectador a interpolar o quadro com sua própria bagagem, fazendo da obra-de-arte uma dança entre o que é mostrado e como cada um vê.
Abraçando o impressionismo, a imagem que Koberidze cria lembra um quadro de Sisley – nos dá o bastante para formar um panorama geral, mas nos deixa as minúcias para completar como um dever de casa. Um pouco do jogo do slow cinema também é esse, compelir o espectador à busca por significantes e significados e, ao todo, a experiência de assistir Dry Leaf é a de tentar ordenar um conglomerado de estímulos.
Os retalhos que Irakli e Levani encontram por seu caminho contam a história de uma Geórgia ao mesmo tempo decadente e vigorosa, recheada por personagens dispostos a falar, escutar e prontos para ajudar desconhecidos. Fascínio antigo de Koberidze, não é por acaso que o último itinerário conhecido de Lisa percorra campos de futebol – para o país do Cáucaso, egresso da União Soviética e historicamente marcado por tensões com a Rússia, o futebol é uma forma de se conectar com o Ocidente azul celeste do SSC Napoli e da seleção argentina.
O futebol enquanto esporte e enquanto alegoria é, em sua essência, um elo entre pessoas: é uma paixão que surge da união, um conjunto que nos tira de nós mesmos e nos faz olhar e depender de outros. Nessa liturgia nada se constrói sozinho e tudo se sublima na multidão; é esse sonho de fazer parte que Koberidze mostra em seu olhar sobre o esporte, destacando por entre todas as peculiaridades de sua Geórgia um povo tão apaixonado e apaixonante quanto qualquer outro.
Em busca de Lisa, Irakli encontra pessoas e animais, campos e árvores, dias e noites. Encontra não o que foi buscar, mas o caminho que foi percorrido antes por sua filha; procurando nesse desencontro um sentido para seu desaparecimento, pistas que ela possa ter deixado para trás.
Mais que a volta ao passado pelo futuro de Lisa, a presença-ausência de Levani nos dá muito o que pensar. Será que verdadeiramente importa o que vemos ou deixamos de ver, se ainda somos capazes de sentir alguém ali tão próximo?
Nem todo o reencontro precisa ser físico; às vezes é possível recuperar alguém refazendo seus passos, vendo o que o outro também viu e compartilhando, senão ao mesmo instante, um igual arrebatamento pelas mesmas histórias. Sob o mesmo teto ou em um rincão do mundo, tudo o que é possível sentir já foi sentido por alguma outra pessoa; é um espanto lembrar que dividimos nossas impressões com alguém, mas é uma forma de superar o tempo e a distância: saber que em algum lugar, em algum momento, alguém atravessou essa mesma estrada e também se lembra dela com carinho.




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